Afinal, a decoração de interiores é realmente necessária? Já vi discussões ferrenhas sobre esse assunto, muitos analisam os excessos, funcionalidade e a atmosfera, mas a verdade é que quase ninguém gostaria de viver em um ambiente árido e frio parecido com o de uma prisão.
Uso o “quase ninguém” pois na internet tudo é possível, então não citarei o “nunca diga nunca” online.
Muitos finalizariam esta discussão com um infame “o que importa é o que se tem por dentro”, mas é aí que realmente começa a indagação do Coronel: porque nossa decoração se inicia da porta para dentro?
Acho engraçadas as pessoas que não dão a mínima para as áreas públicas de onde vive enquanto amam a infra-estrutura de outros paises. Parece uma dupla personalidade, aqui joga lixo no chão e lá faz piqueniques cuidando para não deixar migalhas no gramado.
Por outro lado muitos estrangeiros ficam embasbacados de como abandonamos a área publica e nos dedicamos a criar nossos microcosmos indoors, muitas vezes recheados de souvenires e especiarias de outros países.
Em contrapartida, também se apaixonam pelas artes mais urbanas como o Grafite, pois muitas vezes a possibilidade de se interagir com um ambiente aqui é maior do que seria permitido se fazer em seus países de origem.
Um colega italiano me disse que Milão tem milhões de grandes muros cinzas que poderiam ter ao menos uma fração das ilhas de cor e criatividade que ele via em São Paulo.
Neste tópico, o Coronel gostaria de solenemente destacar um trabalho que trouxe à tona o que ninguém quer ver: os bueiros da cidade. O fantástico trabalho do pessoal do 6emeia poderia ser englobado facilmente no mundo da decoração de exteriores no melhor sentido da palavra.
Ao contatá-los para saber um pouco mais desta idéia, fui muito bem recepcionado pelo Anderson Augusto (o SÃO), que falou um pouco do 6emeia por eles mesmos. Portanto agora termino meu discurso e passo o teclado a um dos mestres da obra:
Então, o Projeto 6emeia é um duo, formado por Leonardo Delafuente e Anderson Augusto. O nome é uma referencia aos ponteiros do relógio, pois quando são seis e meia, os ponteiros do relógio estão juntos olhando para baixo e é para baixo que as pessoas tem que olhar para ver nosso trabalho, pois é nos bueiros que está nossa arte.
Bem, desenho desde 1995, e na escola conheci o Leonardo, ae como ele desenhava também foi fácil nos tornarmos amigos. Costumávamos ir na loja da Comics na Galeria da 24 de maio para ficar vendo os gibis gringos e aqueles vááários pôsteres que a loja tinha. Isso era um modo de termos um contato com a cultura HQ, que depois teve um boom por aqui com o lançamento da versão nacional da revista Wizard e do lançamento de vários títulos em formato americano aqui no Brasil, títulos como Gen 13, Spawn, Wildcats, Pitt, Bone e Savage Dragon. E também nessa época a revista Herói bombava, porque mostrava várias ilustrações japonesas que realmente eram muito boas.
Nessa época de escola costumava fazer bastante capas de trabalhos, pois essa era a minha única alternativa para não precisar fazer o trabalho. O pessoal fazia o trabalho e eu a arte da capa e isso garantia uma nota boa no final, posso dizer que passei a oitava-série por causa do desenho. Na escola o Leonardo tinha uma agência onde eles faziam vários desenhos pro pessoal da escola, ae troquei uma idéia e eles me aceitaram na agência que tinha um nome cheio de trocadalho, PowerGuidos. Poxa, fazíamos de tudo, desde os cartazes para a escola, capas de trabalhos e foi feito até um gibi, lembrando que nessa época nós nem conhecíamos o photoshop… Era tudo feito na mão mesmo.
Em 96 ajuntamos uma grana e compramos 2 sprays, como não tínhamos muita grana só rolou de comprar essas duas latas mesmo, ae fizemos um graffiti no bairro mesmo (Barra Funda), esse foi o primeiro graffiti. Só que as pinturas em parede não deram muita continuidade, no ano de 97 eu saí da escola para fazer o colegial na Lapa, ae meio que perdemos o contato apesar de morarmos no mesmo bairro. Lá por volta de 2002 voltamos a trocar ideia e sempre falávamos e combinávamos de fazer alguns desenhos, só que nunca ia pra frente… Ae em 2006 estamos conversando sobre o projeto Rua do Bosque, que é um projeto nosso onde iremos pintar uma rua toda transformando ela num verdadeiro bosque mesmo, no meio dos vários desenhos que tínhamos feito, resolvemos começar a pintar apenas os bueiros, pois para tornar esse projeto de pintar a rua inteira real, tínhamos que pedir muitas autorizações e isso levaria muito tempo.
Compramos os materiais e marcamos o dia para pintar. Desde o primeiro dia que começamos a pintar os bueiros, sempre pintamos de final de semana e sempre saímos as ruas por volta das 8 ou 9 da manha, pois não tem muitas pessoas na rua. Começamos usando apenas uma cor, depois o trabalho foi crescendo e então começamos a usar várias cores para darmos detalhes e volumes nos desenhos.
Em fevereiro de 2007, saiu uma matéria nossa num site internacional de arte, o EkoSystem, e no meio da repercussão dessa matéria estávamos conversando com o Jonas do Bar Berlin para montarmos uma expo lá no Bar. A expo foi marcada para agosto e como teve uma onda de repercussão em sites como Wooster, Street SmArt, Rueben Miller, La Republlica e em inúmeros blogs internacionais, a expo foi estendida até final de setembro.
Depois dessa exposição toda na mídia internacional, alguns sites brasileiros de notícias resolveram publicar nosso trabalho, mas nem ligamos para isso, pois nesse meio da arte e mídia aqui no Brasil existe muitos pensadores, pessoas que pensam que sabem, pessoas que pensam que entendem, mas que na verdade não passam de apenas replicantes do que acontece fora do Brasil. É a antiga vontade de muitos de serem europeus ou americanos, uma grande prova disso, é que nosso site que está no ar desde agosto, até agora teve 68 mil acessos sendo que na Espanha são 30 mil acessos, no USA 10 mil acessos e no Brasil 9 mil acessos, mas graças a Deus, que sempre fazemos nosso trabalho porque amamos isso tudo, independentemente se alguém fala que é legal ou não.
Coronel, obrigado pelo espaço, valeu mesmo cara.
Arte para todos!
Abraço,
Anderson Augusto (o SÃO)


Cel. Von Lehmann