
Foto central (da esquerda para a direita): Juliana, Priscila, Thaís, Daniela, Poliana, Isis, Diana, Larissa, Mariana e Fabiana.
Existem vários esportes remodelados em ambientes urbanos, como o basquete no concreto dos guetos americanos, o surfe no asfalto dos skates e, no caso deste Coronel e um grupo seleto de aventureiros, o Cross Urbano – mix de downhill, crosscoutry e corrida de demolição de bicicleta pelas ruas de São Paulo. Mas isso já é uma outra história.
Transformar obstáculos da cidade em plataformas para a prática de esporte sempre chamou meu interesse. Talvez por ter tido uma infância aonde tudo era uma desculpa para suar a camisa: tanto nos esportes quanto nas brincadeiras. Mesmo as meninas viviam pulando elástico e corda compulsivamente, quando não estavam atirando um monte de almofadinhas de arroz para cima para pegar tudo com as mãos….
Uma prática que se tornou bastante divulgada no mundo da propaganda chegando a ponto de merecidamente ser inserida em um filme do James Bond foi o Parkour; Uma atividade dinâmica e atlética que só de ver me inspira a sair pulando.
Penso em muitas vezes naquelas situações em que alguém usa um aspirador com tanta habilidade que você fica até com vontade sair aspirando, já passou por algo parecido? Se sim entende sabe que não basta uma fantasia de Super-homem e saltar do alto de um prédio. Tem que saber o que faz. De todo modo qualquer atividade física que envolva molecagem tem o selo de aprovação Von Lehmann.
Voltando ao assunto, para minha sorte o Parkour se tornou um pouco mais próximo, pelo fato da irmã de uma grande amiga ser uma praticante, inclusive com outras colegas. Assim, como o Reino Selvagem apóia diferentes visões sobre o ambiente urbano, assim como o famoso faça você mesmo, este assunto se tornou um preto cheio, pois envolve ambas as coisas.
Sem mais delongas, apresento para nossos assíduos leitores Priscila Caccuri explicando em suas próprias palavras um pouco mais sobre a Liga Feminina de Parkour:
Alguns gostam de chamar de esporte do “Homem Aranha” outros dizem que isso tudo é para fugir do muro da escola. Mas na verdade, todo praticante de Parkour, chamado de traceur ou traceuse (feminino), prefere descrever esta prática como uma atividade física de transpor obstáculos urbanos ou naturais, movimentando-se do ponto A ao B da forma mais eficiente possível.
Difícil? Objetivo? Arriscado? Doloroso? Gratificante!
O Parkour, uma variação do termo francês pra “percurso”, além de ser uma tribo urbana é uma disciplina com influência de treinamentos militares, ginástica olímpica, artes marciais e até mesmo de danças. Aliás, seus movimentos muitas vezes remetem àqueles praticados na infância, desenvolvendo visão espacial, testando novas sensações, criando formas de comunicação que atrai olhares não por uma causa, mas por uma conseqüência.
A primeira vez que soube desta prática criada na França por David Belle, foi assim: “FILHA! Olha essa reportagem! É a sua cara!”.
Insanidade? Bom, eu praticava dança contemporânea há oito anos, tinha jogado basquete por outros quatro, talvez minha mãe pensasse que era uma espécie de dança no concreto. E mal ela imaginava que em uma semana eu conheceria praticantes de Parkour pelo Orkut, marcaria um treino no fim de semana seguinte e sairia sozinha pulando com mais uns 20 garotos. GAROTOS.
Fazer Parkour já é estranho, agora imagine voltar para casa com um hematoma na perna, arranhão no braço e um sorriso enorme: SUBI NO MURO!
Mamãe ligava: “Filha, tem mais meninas com você?”
Eu respondia: “Claro, mãe! Tem mais umas 3 aqui!”
Essa resposta demorou dois anos para se tornar verdadeira, pois agora muitos eventos de Parkour têm acontecido e reúnem praticantes do país inteiro e até convidados internacionais. Em julho de 2008 ocorreu o 3º Encontro Paulista de Parkour que reuniu representantes de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Maringá, Florianópolis, Itajaí, Porto Alegre, Sorocaba, Campos do Jordão, Campinas, Jundiaí e São José dos Campos, com presença em número recorde de 10 meninas! (Havia umas 100 pessoas no evento, enfim!).
A importância dos eventos é que eles aumentam o convívio, a troca de experiências e o exercício de cooperação. O que estimula uma prática independente e contínua, desenvolvendo habilidades físicas, mentais e comportamentais, como: força, impulsão, coordenação, observação, controle, paciência, cooperação, comunicação, humildade e respeito.
A maioria das meninas inicia seus treinos de Parkour quando alguém muito íntimo já está praticando, geralmente o namorado, o irmão, melhor amiga ou amigo. É natural sentir-se mais confortável quando acompanhado, mas como o Parkour é uma prática autônoma e uma disciplina é preciso se desprender desta “zona de conforto”.
No início as garotas têm a impressão de que o ambiente é totalmente masculino, mas acabam se surpreendendo com o incentivo dos praticantes, que se orgulham e vibram com a evolução feminina. Cria-se um clima amigável entre homens e mulheres, pois esta convivência saudável é a base para a concentração.
Na mídia pergunta-se muito sobre a diferença de força muscular e flexibilidade entre homens e mulheres, mas essa é uma discussão biológica. Uma perspectiva mais interessante é analisar o repertório motor do ser humano que é determinado culturalmente. Seria o histórico de experiências do seu próprio corpo. Na infância os meninos são mais estimulados a subir em árvores, jogar bola na rua, andam sozinhos mais cedo e é esse contato com a cidade e com o concreto que mais diferencia: a experiência e a familiaridade com o espaço.
Um exemplo clássico: quando crianças em desenvolvimento estão muito ativas alguns pais têm o costume de colocar os meninos no futebol para gastarem as energias e as meninas no balé para saberem contê-las. Nestes ambientes onde a quantidade de garotos ou garotas é predominante pode-se dizer, segundo a filósofa Judith Butler (1993, Bodies that matter), que masculinidades e feminilidades são construídas a partir da sedimentação de ações no cotidiano.
Uma questão pontual são as diferentes maneiras como homens e mulheres tomam decisões sob os efeitos de tensão, dor, pressão social e auto cobrança. Pois segundo a historiadora Joan Scott (1996, Gênero: uma categoria útil para a análise histórica), o princípio de masculinidade baseia-se na repressão necessária dos aspectos femininos.
Eles lidam desde cedo com o enfrentamento, a virilidade, o adversário, o brusco contato corporal e a atividade constante do corpo. Aliás, a defesa pessoal é tida mais como um valor do que uma habilidade. E elas são estimuladas à delicadeza, sensibilidade, expressividade. Ou seja, em geral os meninos exercitam mais cedo o controle do corpo quando submetidos a um turbilhão de emoções intensas.
Todavia, o que torna o Parkour compatível com garotas nos dias atuais é o fato da cultura social agora enxergar a coragem, a iniciativa e a independência como valores não só admiráveis, mas necessários para homens e mulheres.
No Brasil o Parkour Feminino têm se desenvolvido em quantidade e principalmente em sua qualidade. É difícil desafiar os próprios limites quando os parâmetros são unicamente masculinos e por isso as traceuses têm se arriscado mais, se exposto mais e superado mais medos.
Esta atividade física é individual, mas esta prática como um todo nunca está isolada. Há sempre uma comunicação com um conjunto, seja por linguagem corporal ou verbal. Ela é independente de gênero, raça, cor ou idade, mas sempre está carregada de especificidades que nos torna únicos e mais complexos.
Para saber mais sobre o Parkour, acesse:
Site do grupo Le Parkour Brasil
Viva à diferença! Trace um percurso diferente.
Priscila Caccuri

Cel. Von Lehmann